sexta-feira, 2 de abril de 2010

Que a vida é passageira...

Já é dia claro e faz calor, mas não posso, não quero e não vou tirar seu casaco do meu corpo, tirar seu cheiro do meu corpo. Daqui a pouco vou tomar um banho... E ai vou colocar o casaco outra vez. Porque eu dormi com ele. Casaco e calcinha... Só. E acordei com ele. Dormi outra vez. Não vou deixá-lo agora. Não vou te deixar mais... Tem certeza que é nessa loucura que vai se enfiar? Por favor, diz que sim. Dessa vez eu quero muito. E não vai ser indiferente se você disser não... Vai doer. Mas você não vai dizer não! Você também quer. Você também estava esperando por isso. Você está pronto também.

Não deveria usar essa frase, mas é que só ela vem à cabeça: "Vem, vamos além..."
Desculpa, B., mas agora tudo meu quero transformar em dele, nosso.
Desculpa roubar sua frase. Sem dúvida, estará melhor comigo.

Paradoxo do Pretérito Perfeito.

Minha antítese. Eu, antítese.

Nunca quis tanto agora; nunca quis tanto deixar para depois.
Nunca tive tanto sono; nunca quis tanto estar acordada e viver.

Melhor beijo lento, melhor beijo quente.
Melhor toque, melhor afastamento.
Melhor cheiro. Melhor do mundo. Melhor de todos.

Frio da cama. Casaco quente. Meu corpo quente do seu casaco. Frio sem você.

Dormir. Só dormir. Junto; agora; Juntos; agora.
Vem...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Perfume.

Doce.
Forte.
Amarelo.
Pequeno.
Faz cócega.
Orelha.
Nuca.
Pescoço.
Punho.



Podia até ser M.,...

Abajur.

O quarto é uma zona. Faltam a ele ainda tudo e um pouco mais. Não tem meu edredon vermelho, o sofá não tem almofadas vermelhas, não há fotos, vermelhas, azuis ou em branco e preto. Não tem armário, mesa, e o teclado fica no colo e o mouse apoiado no sofá sem almofadas vermelhas.
Mas tem abajur. Incrivelmente tem algo que é meu. A hundred per cent meu.

Telefone.

Enquanto ele não chega ela espera ansiosa. Arruma a cama, varre o chão, ajeita livros, cadernos, canetas e letras. Troca a música. Escreve, apaga, escreve. Pensa na roupa. Troca a música. Pensa no banho. Começa a pentear os cabelos. Junta forças para o banho. Levanta. Senta. Abre a janela. Fecha a janela e liga o ventilador. Abre a geladeira. Olha. Fecha. Abre outra vez. Come. Anda até o quarto e olha pela janela. Fecha a cortina. Pensa no banho. Muda a música outra vez.
O telefone está ao lado. Ela sabe que não depende dele. Que precisa esperar. Mas é mulher, e é ansiosa em último nível. Fora isso, está apaixonada. Espera impaciente. E troca a música. Levanta e dança. Tira a roupa e fica de toalha. Senta de novo no computador. Escreve.
Decide finalmente ir para o banho.

Mulher.

A mulher finge sempre.

Finge quando se apaixona. Finge não estar apaixonada para não assustar.
Finge quando ama. Finge que não ama para receber o amor de volta.
Finge quando não gosta. Faz que gosta só para perceber as reações.

A mulher finge até para si mesma. Finge que lê tanto quanto deveria, que estuda tanto quanto deveria e que gasta menos tempo pensando em uma roupa ou passando creme no corpo.
Finge que estuda, que presta atenção nas pessoas mais desinteressantes. Finge interesse por quase tudo. Se interessa mesmo por pouco. Pelo pouco que a toca.

A mulher se interessa basicamente por sorrisos, cheiros e apetrechos. Mulher de verdade gosta de homem com sorriso franco e que cheire bem. Para si, gosta de roupas, brilhos, brincos, bolsas, sorrisos, unhas, cremes. A mulher gosta de se enfeitar. Para então ser sorriso e cheiro.
A mulher só aprende a se amar quando se reconhece num lugar, com a roupa e o cheiro dela mesma, do jeito que tudo deve ser.

Voz.

Acorda mansa e fria sobre o edredon quente, com o corpo quente e a alma quente. Ouve a voz dele, a voz doce, a mais nova voz. Bom dia, amor. Bom dia, lindo. É bom, calmo. É tão novo sentir isso... Ela nunca sente assim, ela sempre sente com sofreguidão. E dessa vez ela sente lentamente e por isso sente em cada poro. Não ao mesmo tempo. Um a um.
Acordar com a voz é como acordar com um beijo. Um acordar manso, leve e pronto. Um acordar de espera, de já vou, de vamos passar o tempo juntos. Um acordar de alegria.